sábado, 9 de maio de 2009

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Imagem retirada de:

http://users.isr.ist.utl.pt/~etienne/leisure/Lisboa/calcado-liberdade-shiny.html

- Cheguei num ponto da vida que preciso adotar uma criança. Já passei dos 40 faz tempo, estou realizada profissionalmente e casada há mais de 10 anos. Preciso descarregar meu amor de alguma forma, disse Mariana à Diretora do abrigo.

- Quer levar uma criança para casa? Tenho de tudo: desde bebês, até adolescentes com mais de 15 anos, dos dois sexos e de todas as cores.

- Posso andar por aí para ser escolhida por algum?

- Vamos lá, ao seu gosto.

- Você precisa de algo para o abrigo?

- Tudo é útil: agasalhos, roupas adequadas para os menores, frutas diferentes, produtos de limpeza, absorventes para as mocinhas...

- Providenciarei uma cesta com essas coisas, disse Mariana.

Naquele dia saiu de mãos abanando.

Sábado à noite, na rua escura, perto de um farol.
- Menino, como é seu nome?
- Junior.
- Onde estão seus pais?
- Não sei.
- Vc está com fome?
- Hã hã. Tou com frio.
- Conhece aquele povo ali?
- Eles me ajudam se eu vendo as balas e ganho moedas no farol.
A assistente social chega no grupo de sem teto e puxa conversa. Fica sabendo que o pai do garoto foi assassinado e a mãe morreu de overdose. Ambos menores de idade. O menino ficou abandonado e vive com eles, mas ninguém tem obrigação de cuidar dele.
- Não esse ai não cheira cola e nem usa crack, ainda.


No abrigo para menores:
- Garoto, como é seu nome?
- Junior.
- Quantos anos você tem?
- Não sei.
- Onde estão seus pais?
- Não sei. Minha mãe foi pro hospital e não voltou.
- Como é o nome dela?
- Mamãe.

- Mariana, chegou um menino interessante aqui. Venha conhece-lo. Ele não é cidadão, ainda. Não tem registro, não tem nome, nem idade. Foi encontrado na rua, vendendo balas num farol. Os sem teto da redondeza olhavam por ele.


- Junior, quer ir para minha casa comigo?
- Você vai me colocar no farol?
- Não, eu vou colocar vc na escola. Você terá casa, comida, roupa limpa e a obrigação de ir à escola e ser um bom aluno. Pode escolher um nome para você.
- Já tenho nome, é Junior.
- Precisamos arrumar um nome bonito para você colocar o Junior. Pode ser Alexandre, Jonathan, Roberto ... vc escolhe.
- Tá bom. O velho que me ajudava era Vanderlei. Posso ficar Vanderlei Junior?
- Pode.

Mariana levou o guri para casa. Ele recebeu o melhor banho de sua curta vidinha e roupas. Penteado, cheiroso e de tenis novos foi chamado para almoçar. Claro que não sabia se comportar à mesa. Claro que nem imaginava como pegar num talher ou quanto de comida deveria ingerir. Ele não sabia que dentro de algumas horas iria comer de novo; teria frutas ao seu dispor, e que poderia assistir TV sentado num confortável sofá. Ele nunca tivera uma cama limpa e com cobertas escolhidas só para agradá-lo e aquece-lo. Nem poderia imaginar que ao abrir o armário encontraria roupas dobradas de cheirosas para uso.

Ele andou pelo apartamento e ficou surpreso de ver limpeza e a organização. Encantou-se com o aquário e seus peixinhos coloridos. Seu mundo era composto por ruas e faróis; brigas por pedaços de comida; frio e chuva. Ele já sentira as dores da fome e da violência.

Por orientação da assistente social ele comeu tanto que foi parar no pronto socorro, duas vezes, até entender que teria alimento nas horas certas. Descobriu o prazer do banho e de usar o banheiro; de ter roupas frescas; da comida limpa e cheirosa, mas, a liberdade não tem preço.

Vanderlei Junior encontrou o meio de sair daquela gaiola dourada para viver sua vida, de roupa limpa. Escapava à noite, sorrateiramente, para o farol mais próximo. Pedia moedas e vendia as balas que retirava da casa. Começou a colecionar seus trocados e aos poucos passou a troca-los por cola e pedras de crack. Um dia, não voltou para seus protetores e quase os enlouqueceu. Susto, medo, amor e fúria se misturaram na busca infrutífera.

Aos 5 anos de idade Vanderlei Junior já era velho. Viciado, não suportou o cativeiro de luxo. Despareceu na vida. Foi encontrato morto, atropelado no meio da rua, sujo, machucado e com as mãos queimadas pelo cachimbo de crack. Ainda não era cidadão. Ainda não tinha registro e nem fora adotado.


Elza Lara

2 comentários:

Felina disse...

cruel realidade.

Ana disse...

Que triste...

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